O Brasil nos anos 80 oferecia em suas escolas o segundo grau
profissionalizante. Os cursos oferecidos se diferenciavam dos que eram dados
nas escolas públicas e nas particulares. Lembro-me que as “normalistas” faziam
magistério em nível de segundo grau e já saiam formadas como professoras. O
curso técnico em contabilidade era o que tinha disponível. Boa parte dos
professores e contabilistas da época ingressavam no mercado de trabalho após a
conclusão do segundo grau, hoje, ensino médio.
Os cursos técnicos oferecidos
hoje em dia, não mais em nível escolar, não tem a mesma continuidade
como os que tinham quando o mercado não exigia tanta experiência. Muitos
contadores e professores formados naquela época, exerciam suas funções sem
maiores exigências.
O Instituto Universal Brasileiro foi um famoso curso à
distância, e entre as modalidades oferecidas estavam corte e costura, técnico
em eletrônica, fotografia; bombeiro hidráulico; desenho artístico e
publicitário; silk screen, entre outros, dos quais se exige hoje formação superior. A vantagem desses cursos disponíveis
era que o interessado buscava aprender o que mais se adequava à suas aptidões e
vocações. E quem não se lembra dos cursos do SENAI? Mas o ingresso no mercado de trabalho com essa formação, inclusive
com certificado reconhecido, não era tão fácil. Quem tinha vocação para o
empreendedorismo, abria seu próprio negócio ou trabalhava na informalidade. Os
mais esforçados e estudiosos conseguiam ingressar em universidade pública, que
era referência na época para formar-se em curso superior.
O mercado de trabalho hoje exige cada vez mais qualificação e
os cursos técnicos nem sempre são aceitos sem uma formação paralela e
experiência comprovada. Como ocorria na década de 80, os de espírito
empreendedor acabam tentando “ganhar a
vida” na informalidade.
A realidade de hoje em dia é bem diferente, apesar de o
governo investir em escolas técnicas – que apenas oferecem o curso -, mas sem
um sequenciamento capaz de interferir positivamente no mercado para a
contratação desses técnicos recém formados, principalmente por não se adequarem
à exigência de experiência e não possuírem um curriculum satisfatório ao
contratante. Os que conseguem exercem funções secundárias e temporárias. Em
muitas empresas, por exemplo, os que assumiam cargos pela experiência técnica
de anos, são substituídos pelos que possuem formação superior; outros são
obrigados a se formarem para continuar no exercício da função, mais por uma
exigência do que por capacidade e desempenho.
Não existe levantamento sobre o número de formados em escolas
técnicas que conseguem ingressar no mercado de trabalho efetivamente.
Se não houver um trabalho paralelo do governo com parcerias
de empresas, por exemplo, incentivando-as a abrir portas de emprego a esses
técnicos, todo o conhecimento adquirido pelos formados, pode não ser
satisfatório sob o ponto de vista da realização profissional e financeira.
Neste ponto, o governo cai no mesmo vício de apenas “dar o peixe”, o mesmo que
ocorre em outras ações na tentativa de melhorar a vida das pessoas mais pobres.
Sem adequação ao mercado de trabalho e sem o cumprimento de exigências básicas,
dificilmente o indivíduo se tornará liberto para uma vida independente. A
ascensão da pobreza e de escala social não se encerra apenas com a formação,
mas com diversos fatores decorrentes a partir dessa base, também de responsabilidade do poder público. Para isso, sem
dúvida, é preciso crescimento e avanço em áreas estratégicas para abrigar os
recém saídos de cursos. Isso exige mais esforço do governo, pois não
dependerá apenas de aporte financeiro como ocorre com a abertura de cursos e a
possibilidade de ingresso em cursos superiores e com os programas sociais,
bancados com dinheiro público, o que não exige maiores estratégias. Para
avançar para outras escalas é preciso definir planos de negociações,
estratégias gerenciais e planejamento. O esvaziamento dos cofres pode, a longo
prazo, tornar-se um grande perigo para o país em nível de investimentos em
outros setores de desenvolvimento social, humano e estrutural. É assim que
acontece quando um jovem formado, com capacitação técnica, não consegue entrar
no mercado por falta de outras capacitações exigidas, pois acumulou apenas
parte do conhecimento que deveria ter para avançar na vida. O sorriso pelo
diploma na mão dura até o momento em que
começa a esbarrar em dificuldades para ser aceito. O risco que se corre a
partir daí, é esse jovem achar que o sistema conspira contra ele. Mas é apenas
uma inadequação técnica que precisa de ajustes.
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