quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

SOZINHO ELE NÃO CONSEGUIU

É preciso entender que nem tudo
obedece às nossas expectativas.
Ele era um homem de muitos talentos, boas idéias; tinha uma boa oratória e poder de persuasão que o colocava em destaque em tudo o que fazia. Formou-se numa importante universidade. Seu espírito empreendedor o levava para frente. Certa vez, um de seus trabalhadores o procurou para conversar e passar alguns projetos que tinha. Disse que precisava fazer algo novo em que pudesse desempenhar exatamente o que gostava. O patrão olhando para ele e, tentando motivá-lo, foi incisivo, dizendo que ele não deveria se preocupar tanto com o trabalho e que devia fazer algo diferente e, ainda, o aconselhou a   praticar esportes, atividades físicas, pois assim talvez,  pudesse sentir-se melhor.
Por outro lado, o patrão dizia que naquele momento não precisava de ajuda de ninguém e que conseguiu tudo o que conseguiu na vida porque não se deixou abater; correu atrás do que queria, nunca esteve desmotivado e orgulhava-se disso. Mas era um homem extravagante, impulsivo; tudo o que queria teria que ocorrer de maneira rápida; chegava a pressionar seus funcionários dizendo que o que queria era para ontem.

O empregado saiu de sua sala desapontado. Não era isso o que buscava, não era o que esperava. Mas continuou, mesmo sabendo que poderia ser mais produtivo e  melhor aproveitado e realizado profissionalmente.

Passados alguns anos, ele saiu da empresa e foi trabalhar com um empreendedor iniciante. Com sua experiência, aliada ao empreendedorismo do seu novo patrão, fez a empresa crescer e prosperar. Aos poucos, ele foi conquistando a confiança e credibilidade com a seriedade com que tratava seus negócios. Sua relação com os empregados da empresa era clara; sempre dizia o que realmente queria dizer e precisava ser dito; fazia o que realmente precisava ser feito, com transparência. Sua ambição não ultrapassava o bom senso; demonstrava ser um homem equilibrado e de valores morais bem definidos. Mesmo sem ser impulsivo e agressivo em suas ações, porém com trabalho permanente e projetos consistentes, tornou-se um homem próepsero, e não orgulhava-se disso. Parecia fazer tudo de maneira orquestrada, segura, como se soubesse exatamente onde chegaria.
Para ações definidas, há critérios definidos.
Certa vez, um funcionário o procurou. Disse a ele que futuramente gostaria de ser um empreendedor como ele. E perguntou-lhe  qual era  seu segredo de sucesso. Com muita humildade ele respondeu: -Você primeiramente precisa ouvir o seu coração; é o desejo do seu coração aliado à sua competência que o fará vislumbrar algo melhor. Mas esse sentimento jamais será compreendido por aqueles que não conseguem enxergar isso em você, e que você senta jamais lhe concederem oportunidade para que você coloque em prática o que realmente acredita. É melhor aliar-se com quem precisa de você, do que com os que cresceram de maneira que os levaram a sentirem-se grandes o suficiente a ponto de dizerem que não precisam de parcerias. Um outro segredo é crescer primeiro para baixo e criar raízes; depois crescer para os lados para ter estabilidade e, só depois, crescer para cima. Isso é no passo a passo. É como o semear uma semente. Não  planta-se hoje e colhe-se amanhã. A semente precisa estar em boa terra; ser regada e cuidada, para que seus frutos sejam saudáveis.

Separar proatividade, de atitudes precipitadas, é
questão decisiva para obter sólidos  resultados.

É verdade que na vida moderna somos motivados a fazer as coisas apressadamente, como se isso fosse trazer resultados mais rápidos. Aprendemos ser imediatistas. A sugestão é "movimento" e, que as coisas envelhecem da noite pro dia. Nem sempre as coisas acontecem como pensamos, mas acontecem como devem acontecer a seu tempo. É necessário o reconhecimento sobre o papel que temos a desempenhar para que os sonhos e projetos de vida se concretizem de maneira sustentável, honesta e segura. Senão, passaremos a vida plantando muito e colhendo pouco; gastando energias no presente, que precisaremos no futuro, para usufruir tudo aquilo que desejamos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

QUEM É QUEM


Era um menino ainda franzino e, quem o via trabalhar, sentia piedade; outros comentavam sobre sua coragem e disposição, não por que ele trabalhava, mas, pelo que fazia. Para um menino de 09 anos, ajudar descarregar o caminhão de verduras de seu José era trabalho pesado. Quem olhava de fora tinha opiniões diferentes. Uns comentavam, até com certa admiração, o fato de um menino tão pequeno fazer o que fazia, enquanto outros brincavam. Outros diziam ser um absurdo aquele menino carregar aqueles caixotes cheios de verduras. Mas o curioso era que o menino não era empregado de seu José. Ele fazia por que queria. E, assim era nas redondezas com a vizinhança. Diversas vezes encontrava-se com vizinhos que desciam do ônibus com sacolas de compras e se prontificava a ajudar levar o peso até em casa.

Ele não era um menino de rua. Morava ali mesmo no bairro. Tinha outros irmãos mais novos. Seus pais eram bons vizinhos e pessoas honestas, apesar de pobres e ter uma vida difícil. Gostavam e orgulhavam-se da maneira como seu filho ajudava as pessoas. Em casa era a mesma coisa. Sempre prestativo.

Mas ele decidiu trabalhar. Comprou uma caixa de isopor, e começou a vender picolé no centro da cidade onde morava, exatamente num momento muito difícil para seus pais. Seu irmão menor ficou doente e, os recursos da família, não eram suficientes. Apesar de pouco dinheiro obtido com a venda dos picolés, dava para ajudar em outras coisas - por exemplo, comprar pão e leite - algum alimento para casa, o que já ajudava.

Certo dia, ele chegou perto de um homem e ofereceu o picolé, dizendo: "Compra, moço; compra pra me ajudar; eu quero ser alguém na vida".

Erramos ao associar o que as pessoas fazem
ao que elas são.
Aquele menino, tão prestativo e de grande amor no coração pelas pessoas e pela família, pedia ajuda para ser alguém na vida. Dando atenção ao pedido do menino, ele o perguntou: "O que é ser alguém na vida? O que quer ser? O que você pensa que lhe faria alguém na vida?"
Talvez o menino não tivesse noção exata do que estava pedindo. Muitas vezes, até mesmo por vício de linguagem, alguns se manifestam dessa maneira, com o objetivo de sensibilizar aos outros para aquilo que oferecem, como no caso dessa criança, que oferecia seu picolé, sob o pretexto de que sua venda o ajudasse a ser “alguém” na vida.
Diante daquele homem, o menino disse apenas, que queria vender seu picolé. E aquele homem disse ao menino: - Todos nós, somos alguém na vida. Você é alguém. Insubstituível. Você é único; não há outro igual a você.


É fato que aprendemos a avaliar sobre o que vemos.
É necessário mudar o olhar para enxergar.  


A verdade, é que aprendemos que ser alguém, é ter uma profissão que nos dê estabilidade ou notoriedade; aprendemos que ser alguém é portar um diploma universitário; é alcançar status social; conquistar o primeiro lugar nos objetivos que perseguimos. É certo que tudo isso pode ajudar uma pessoa a tornar-se  requisitada e até mesmo reconhecida. Mas é o alguém que há por trás desses desejos, desses sonhos; é o alguém que conquistou o status, o diploma, a notoriedade, que é importante. 



O que fazemos pode dar uma ideia
de nossas condições.
Não do que somos. 
Não são as coisas ou conquistas que nos fazem alguém na vida. É por sermos alguém, que conquistamos. A visão contrária, torna pessoas escravas de suas buscas, como se a realização nessas esferas da realidade humana fosse o principal, um fim em si mesmo ou o que bastasse. Aprendemos a trabalhar no sentido inverso, a ponto de nos sentirmos valorizados apenas pelo que temos, não pelo alguém que somos. Aprendemos a nos sentirmos satisfeitos, apenas quando fazemos parte do grupo consumidor; dos que são aplaudidos ou ovacionados por alguma realização que agrade o seu grupo. Aprendemos a não nos contentarmos apenas com a idéia de sermos alguém como somos: Únicos; insubstituíveis. Esta parece uma visão romântica diante da praticidade que a vida que construímos nos exige. Passamos a viver a vida reagindo mais, e agindo menos. Os que tocam a música, querem que dancemos segundo seu ritmo e, dificilmente, paramos essa música para trocá-la. Perdemos o auto controle e vivemos sob controles sugeridos. Viver o sentido inverso, do que coletivamente aprendemos causa sofrimento e, dificilmente, seremos compreendidos como somos. Desta forma precisaremos sempre de uma "escora" para sustentar-nos; é uma sustentação vulnerável, insegura que, quando a perdermos, sobrará exatamente o alguém que somos e que não aprendemos a aceitar. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CONSTRANGIMENTO POSITIVO?


Ela trabalhava fora. Saía cedo de casa, ainda  de madrugada, para chegar a tempo no trabalho. Enfrentava ônibus e trens lotados. Tinha dois filhos. O mais velho, de 13 anos estudava pela manhã e chegava em casa no início da tarde. O mais novo, ficava na creche-escola em período integral até a chegada da mãe. O pai trabalhava nas proximidades, numa banca de frutas e, o filho,  fazia-lhe companhia durante o restante da tarde. Mas, naquele dia, o filho chegou atrasado, diferentemente dos outros dias, como de costume, mas com um belo e reluzente relógio no pulso.  Com muita alegria, levantou o braço, aproximou o pulso do rosto, como que chamando a atenção para aquele objeto de valor. O pai, logo tratou de saber como havia conseguido aquele aquele relógio.

A educação que o menino recebia dos pais, aparentemente o instruia sobre questões morais, valores, respeito ao próximo, honestidade. O menino ficou meio sem jeito de dizer, mas falou que ganhou de uma pessoa na escola, sem dizer quem havia lhe presenteado. Mesmo sabendo que o filho era um bom menino, e confiante na educação que lhe dava,  o pai  procurou tirar a história a limpo. Disse para o filho contar a história direito, que só queria ajudá-lo e que confiasse nele. Ao chegar em casa à noite, conversou com a esposa sobre o ocorrido.
O " ralhar" precisa ter  propósito
educativo, não uma maneira de
descarregar raiva. 

Ela concordou que o caso fosse apurado, mas deveria fazer isso com muito carinho e amor, pois tratava-se de um assunto delicado e poderia causar inimizade do filho. Poderia deixar o menino constrangido, revoltado, ou até inseguro,  se ele demonstrasse desconfiança para com o filho. E foi assim que, decidido, o pai disse ao filho que iria à  escola com ele no dia seguinte e que gostaria de ser apresentado à pessoa que o presenteou, porque queria, de igual modo, em sinal de agradecimento,  presenteá-la também.

O pai, então,  preparou uma cesta de frutas frescas das quais vendia em sua banca,  e levou com ele. Ao chegar à escola, o menino apontou para uma senhora, que era conhecida como a “tia da limpeza”, dizendo ter sido ela que o presenteou com aquele relógio. Os dois se aproximaram daquela mulher. O pai do menino se dirigiu a ela perguntando se ela havia presenteado seu filho com aquele relógio. A mulher, com os olhos lacrimejantes disse ao pai daquele menino, que seu filho era um menino de ouro. E contou a história. Foi na hora do intervalo, na volta para a sala de aula: um colega havia se ferido numa brincadeira e sofreu um corte no braço e, ao ir para o banheiro lavar-se, escorregou no chão molhado e caiu. O menino o encontrou e  correu para avisar e chamar o socorro e não sossegou enquanto não recebeu a notícia de que o amigo estava bem. Depois disso, ainda ajudou a ”tia da limpeza” a limpar o local. Emocionada, ela se lembrou que seu filho também se acidentou certa vez, ficou gravemente ferido em um acidente de trânsito e, mesmo diante de tanta gente passando pelo local, ninguém o socorreu. Ele não tinha nenhum ferimento aparente e ela lembra que, por isso talvez, não tenha sido socorrido. Mas ela presenteou aquele menino, com um relógio que pertencia ao filho dela.

Essa história do menino, que levou o pai a desconfiar do objeto que estava com seu filho, levou à revelação de uma outra história. O menino foi elogiado por sua presteza e iniciativa em ajudar ao próximo. Mas, a maneira como o pai agiu diante desse episódio, demonstrou preocupação e cuidado com o filho. Esse pai, acabou descobrindo as atitudes positivas do menino longe de seus olhos. A preocupação em acompanhar cada ação, cada conquista e cada reação dos filhos, pode não significar  “controle” ou constrangimento, como muitos são tentados a pensar, por uma mentalidade moderna de educar sob o argumento de que o importante é assumir o que se faz. Lembro-me ainda nos anos 80 de um comercial de rádio, que anunciava shampoo, creme rinse e desodorante de uma marca que não se vê mais no mercado. Em uma das peças, o rapaz chegava tarde em casa, e levava aquele sermão do pai. Noutra peça, da moça que dormiu na casa do namorado.
Longe dos "portões" de casa,   a educação
recebida também se revela. 
A mensagem do comercial era de que o shampoo, o creme rinse e o desodorante daquela marca era usado “ por uma geração que assume o que faz”. Nesse caso,  “saber o que faz”, sugeria quebrar o modelo  da educação que os pais davam. Ou seja: não podia impedir aos filhos, de fazerem o que desejavam fazer, bastando apenas “assumir seus atos”.


Hoje em dia, diferentemente do passado, em que normalmente os pais inquiriam respostas, se preocupavam em saber o que os filhos faziam, onde e com quem estavam, existe um mercado tecnológico para ajudar os pais a monitorarem os filhos, sem dar a eles a chance do diálogo. Dispositivos são colocados nos computadores para "vigiar" em que sites e comunidades seus filhos estão acessando, até tornar possível saber em que teclas seus filhos digitam. Cada vez mais, isso revela o distanciamento presencial dos pais e, com os recursos tecnológicos que oferecem o monitoramento passam a viver uma falsa sensação de estar cumprindo com seu papel. Mas na verdade, o  monitoramento só revelará o que os filhos acessam, não os motivos que os levam a buscar no mundo virtual o que não conseguem obter dentro da realidade em que vivem. O monitoramento constata apenas um fato, mas não resolve seus motivos.
No caso da "geração que assume o que faz" em muitos casos, quando se chega a assumir, mesmo sob aplausos pelo reconhecimento de responsabilidade, esse “assumir” pode ser o extremo, onde nem sempre se recupera o que se perdeu. Assumir uma atitude, mesmo pagando por suas consequências é um ato egoísta, pois nem sempre o lado prejudicado é ressarcido; o que foi destruído, nem sempre pode ser recomposto.  
Educação, vai além de informar ou corrigir.

A educação forma o caráter. E isso saberemos nos momentos em que saímos dos portões de casa e ganhamos vida própria. Importar-se com os filhos, seja em que situação for, também significa cuidado e amor.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

QUEBRANDO PRECONCEITOS


Ele começou a namorar com uma moça de família. Um jovem responsável e trabalhador, porém tinha muita dificuldade de expressar seus sentimentos. Apesar de dizer a pessoas mais próximas de amava sua namorada e com ela desejava se casar, ele era tímido junto a ela. Pensava coisas bonitas para dizer, mas não tinha coragem de falar. Ensaiava algumas palavras que pretendia dizer, mas na hora de se expressar, a timidez o impedia. A moça ficava confusa, sem saber direito o que se passava com ele. Ela perguntava, e ele sempre dizia que não era nada; que ela não se preocupasse. Mas essa maneira com a qual ele se relacionava, começou a esfriar, da parte da namorada.

No fim daquele ano, ele planejava uma surpresa. Com o dinheiro que recebeu do décimo terceiro salário, comprou um belo presente para entregá-la. Muito feliz, chegou em casa e se preparou para ir à casa da namorada para entregá-la o presente e levar a ela uma carta que escreveu, dizendo  tudo o que sentia, e que com palavras não conseguia dizer.

Ainda não aprendemos a aceitar as pessoas
como elas são. 
Mas, quando chegou à casa da namorada, ela havia saído. A mãe disse que ela saiu com umas amigas para o aniversário do primo de uma delas. Com o presente na mão, sua expressão entristeceu-se; não perguntou mais nada e, em sua cabeça, pensava muitas coisas. Ficou perturbado e sentiu-se traído pelo fato de ela não ter dito nada a ele sobre sua saída naquele dia.
Ao voltar para casa, ficou pensativo. No fundo ele sabia de  sua maneira distante de se relacionar por causa de sua timidez e isso lhe causava grande sofrimento. E, não só em relação ao namoro, mas ele tinha dificuldade de dizer não, quando queria dizer não. Dizia sim, apenas para agradar as pessoas.  As vezes dizia sim para questões que sabia que o faria sofrer. Mas achava-se responsável e, para ele, sua palavra não podia voltar atrás. Mesmo insatisfeito com algumas situações, ele dizia que o importante é que estava sendo útil.

Alguns os aconselhava a procurar tratamento psicológico para saber lidar com sua timidez, mas ele sempre recusava.

Finalmente a moça de quem tanto gostava, disse que não queria mais namorar com ele, e romperam - o que os outros que olhavam de fora há esperavam.

Na vida, todos nós temos dificuldades em áreas diversas. Há os que se desempenham bem numa área, enquanto outros, apresentam mais dificuldade. As relações humanas requerem comunicação. Mas é importante reconhecer que nem todos conseguem expressar-se da maneira como desejariam, ou como esperamos e, isso, de algum  modo  torna-se um sofrimento para quem se reconhece assim. Há muitos que perdem grandes oportunidades na vida em áreas diversas, mesmo tendo grande potencial, inteligência e preparo, mas na comunicação interpessoal, por causa da timidez, arriscam-se a  estagnar-se.

Somos formatados segundo os
conceitos sociais.
A mudança do pensar ocorre quando
nos permitimos o confronto de idéias. 

Na verdade, vivemos numa sociedade em que aprendemos a olhar o ser humano de maneira rasa.  Dificilmente paramos para tentar entender o outro; seus olhares, suas expressões. Por trás de uma pessoa que consideramos fechada pode haver um bom amigo, assim como um bom amigo pode ser os mais expansivos. Na área profissional, o desempenho nem sempre pode ser afetado por causa da timidez, dependendo da área onde atua. Procurar olhar uma pessoa de maneira individualizada, fugindo aos apelos dos esteriótipos que a sociedade cria, pode nos fazer descobrir grandes seres humanos, competentes e produtivos, mesmo aqueles que aparentemente nos fazem jujgá-los como indiferentes, distantes e introspectivos. Como não aprendemos a lidar com isso, pelo formato com o qual somos criados, isso, certamente dá trabalho e, de fato, aprendemos que os semelhantes se atraem - assim, dificilmente saberemos aceitar as diferenças, provocando divisões, as  facções, tribos, e julgamentos precipitados. Quando nos permitirmos a boa vontade de não olhar apenas para as expectativas que criamos em relação ao outro, mas procurar aceitar as pessoas como elas realmente são, do mesmo modo, daremos a nós mesmos a oportunidade de mudar nossos conceitos e quebrar preconceitos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

APAZIGUANDO A CONSCIÊNCIA


Ele era um jovem muito sonhador. Queria trabalhar, estudar, conseguir futuramente um bom emprego e ajudar a família. Ele queria construir um futuro melhor, diferentemente da realidade dura que enfrentava seus pais.

O jovem, foi criado sob princípios religiosos e, seus pais, deixaram escapar grandes oportunidades, porque acreditavam que religião e trabalho tinham que estar em harmonia. Para eles, seria chocante o fato de passar por cima de seus princípios só por causa de um bom salário ou uma boa colocação no mercado. Dinheiro não era tudo para eles. Uma consciência tranquila, sim.
Quando estamos decididos,
dificilmente pensamos duas
vezes no momento da prova. 

Foi sob esse sistema que o jovem foi educado. Até que seu tio, que trabalhava em uma grande empresa, conseguiu um emprego de office boy para ele. O jovem, ainda no período de experiência foi chamado na sala da chefia. O chefe pediu à ele que fosse no bar da esquina comprar um maço de cigarros. Diante do chefe, ele demonstrou preocupação, sem expressar imediatamente alguma palavra. Ficou chocado com o pedido e sem saber o que fazer naquele momento. O chefe olhava firme para ele, como que esperando a reação natural de pegar o dinheiro e dirigir-se ao referido bar para comprar-lhe o cigarro. Mas, sem graça, olhava para o chefe como querendo dizer alguma coisa. Como fazer isso?  - pensou ele. Seus pais nunca fumaram. Ele, criado nesse ambiente, como um jovem religioso, aprendeu que o mal que não queria para si, também não fizesse ao outro.

Por outro lado, ele pensava que poderia colocar seu emprego em risco, se não fizesse aquele favor para seu chefe. Mas ele decidiu fazer o que seu coração dizia. Ao mesmo tempo, pensou que se fosse penalizado pelo que achava certo, pelo menos sua consciência estaria tranquila. E foi assim que disse ao chefe, que se ele quisesse um outro favor, poderia fazer, porque comprar cigarro não achava certo. E explicou seus motivos. O chefe olhava para ele friamente, ouvindo as explicações - e ele continuava: dizia que seus pais nunca fumaram e que também nunca fumou porque o cigarro fazia mal à saúde. Finalmente disse que o mal que não deseja para sí, não deseja para o outro.

O dinheiro do cigarro que estava na mão do chefe, que antes, estendia em sua direção, foi colocado no bolso da camisa novamente. Depois de dizer essas palavras o jovem se sentiu aliviado.
O chefe disse ao jovem, que nunca ninguém havia negado esse pedido a ele. Todos que passavam pelo seu departamento, nunca demonstraram esse tipo de preocupação, com uma coisa que considerava tão simples. E acrescentou: - a partir de hoje, você terá minha grande consideração e farei de tudo para que você seja bem sucedido aqui na empresa. Porque se você valoriza as pequenas coisas e se preocupa com a sua consciência, você está aprendendo a ser um ser humano melhor.

Na verdade não foi o fato de o jovem ter sido comparado de maneira superlativa aos demais “compradores de cigarro”, que o tornou melhor que os outros. Aliás, cada ser humano vive de acordo com sua realidade e com seu aprendizado e, muitos, aos poucos, passam a entender com suas experiências de vida. Outros, continuam achando tudo muito normal, assim como o exemplo que o chefe deu àquele jovem. Mas o ponto forte que definiu o caráter daquele principiante, foi o de ter mantido firme sua posição e consciência diante de uma “prova” , que pensava ele poder lhe custar a primeira oportunidade de emprego.

Em outras situações, as coisas não são diferentes. As atitudes que tomamos, é que de fato, expressam o que defendemos, o que aprendemos e o que seguimos. O que poderia mudar, se levarmos em conta o pensamento prático e superficial? Tudo poderia continuar como estava. O chefe não deixou de fumar por causa disso, nem o jovem sofreria de maneira direta algum efeito se tentasse apaziguar a consciência com o pensamento de que não estaria induzindo ninguém ao vício, pelo contrário, estaria fazendo um favor a alguém, ajudando-o a alcançar a coisa desejada.
Os caminhos estão diante de nós
Eles não nos fazem piores ou melhores,
mas podem revelar o que buscamos. 


A verdade, é que se quisermos, conseguiremos argumentos para massagear a consciência e, isso, repetidas vezes, acaba tornando-se comum. Sob variados pontos de vista, temos variados argumentos e possibilidades de nos mantermos, de algum modo, em  “paz” com a nossa consciência.  É nesse ponto, que começamos a ensaiar com o nosso “eu interior” um discurso conveniente, que muitas vezes tornam-se até convincentes e conseguimos encontrar quem nos dê razão.

Na vida sempre estamos diante de situações assim. Precisamos escolher entre uma consciência tranquila ou aceitar fazer o que imediatamente pode ser uma promessa de oportunidades que sonhamos na vida. De fato, o que ocorreu a esse jovem, não é comum. O chefe poderia ter se endurecido e não ter reconhecido a questão espiritual decisiva por trás da atitude daquele jovem e não deixaria de ter razão, sob seu ponto de vista e realidade de vida.
Mas nem todos tem a  sensibilidade de entender e respeitar o outro em suas crenças ou modo de agir, diante de coisas que parecem simples e comum a todos. Mas, mesmo tendo que pagar um preço, talvez, o melhor mesmo é a decisão por uma consciência tranquila e ter paz consigo mesmo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

"EU NÃO SEI O QUE QUERO"


Ele subia a rua, caminhando lentamente,  como se o tempo não lhe impoortasse mais.  Com seu corpo encurvado pela idade, apoiava-se numa bengala improvisada com um galho seco de árvore. Ao lado de um repórter que fazia um documentário sobre os remanescentes de escravos, ele dizia ter 109 anos de idade e, segundo ele, ainda trabalhava na roça "todo santo dia". Relembrava como em flashes de memória seus momentos de criança,  no período  em  que  seus  pais  e  seus  avós, serviam a senhores de escravos. Falou da dor e do castigo sofridos pelos seus ancestrais, de sol a sol, sob os olhares de feitores com chicotes empunhados nas mãos. Mas a idade e a dura experiência  de  vida,  parecia tê-lo tornado uma pessoa serena, quem sabe, anestesiada pelos calos d'alma devido os tempos de duros castigos e o amadurecimento do espírito. Certamente, essa disposição de espírito não se aprende noutra, que não na escola da vida. Pelo tom de voz com que falava ao repórter e pela expressão serena que, em alguns momentos, esboçava um riso tímido, apesar de enrugada pelos sinais do tempo, fazia-se notório o que a vida lhe ensinou.
Ao final da conversa, o repórter perguntou ao idoso cansado, como estava sua vida hoje,  e como estava sua saúde.
Os calos também ensinam e protegem. 

 - Hoje? Hoje eu tenho diabetes, graças a Deus! - respondeu.  O repórter ficou impressionado com aquela resposta. - Como o senhor agradece a Deus  pela doença? – e aquele ex-escravo acrescentou:
-Eu não sei o que quero, mas Deus sabe o que faz.
Foram palavras simples, numa resposta dada por um homem simples e sem estudo, um descendente de escravo, mas que mostravam nas entre-falas  grande sabedoria. Não sabedoria em agradecer por uma doença, mas por reconhecer a grandeza de Deus, diante de sua pequenez.
 Aliás, assim somos todos, quando reconhecemos que de Deus dependemos.
 Lembro-me de uma passagem do Salmista que diz: "...assim como a criança se aquieta nos braços de sua mãe, assim é minh aalma para comigo"...

É o espírito de aceitação das circunstâncias nas quais nos encontramos que nos dá serenidade para viver melhor em momentos difíceis. Pela nossa ânsia de nos livrarmos de situações que não queremos enfrentar, sofremos duplamente: por "espernear" como um ato de reprovação e, pela frustração, pois determinadas situações não temos como evitar.  O próprio cristo no momento de profunda angústia em seu "calvário" disse: "Pai, se possível passa de mim esse cálice, mas todavia seja feita a Tua vontade".  

Assim como a revolta do mar, a revolta da alma
é apenas estado de espírito. Nem sempre conhecemos
a causa. 

Aquilo que não entendemos direito, precisamos aceitar, pois não dominamos o que está fora do nosso controle. Quantas vezes reclamamos de algo que mais tarde, começamos a entender, juntando as "peças", montando o "quebra-cabeça". A verdade, é que individualmente, cada um de nós tem uma missão a cumprir; uma dor a sofrer; uma vitória a alcançar. Mesmo havendo necessidades comuns a todos, assim como necessidades e desejos, cada indivíduo precisa aceitar para entender, agir ou reagir, de acordo com suas percepções, não apenas físicas, mas sensoriais.  O desenvolvimento de um espírito inabalável, não significa insensibilidade, ou viver numa outra esfera ou dimensão, como se estivesse imunizado contra os impactos negativos da vida. Esse espírito "inabalável" tem um significado profundo, de que mesmo diante das adversidades da vida, é possível manter-se em paz - com a consciência de que os momentos vividos, são como um mar revolto, que alterna sua agitação com períodos de calmaria. Quando inclinamo-nos espiritualmente a enxergar a calmaria, além da tormenta que se abate sobre nós, a tempestade nos trará apenas lições de como sobreviver em toda e qualquer situação.
É por disposição espiritual que conseguimos visualizar a
calmaria além da tempestade. 

Aceitar, não quer dizer concordar, ou viver como se não houvesse saída. Aceitar é o primeiro passo para adotarmos um comportamento ou condição menos dolorosa. Aceitar que a nossa vida é instável. Aceitar que não somos perfeitos. Aceitar que falhamos. A aceitação diminui a ansiedade e nos faz refletir sobre a maneira como encaramos as adversidades da vida e de que maneira pode nos tornar pessoas mais seguras e resilientes diante das provas.
Não é a bonança que nos ensina. É a tempestade. Dificilmente aprendemos com a fartura, mas com a escassez. Tudo é válido, quando nos reconhecemos no todo. Não viva ansiando a bonança, lutando para antecipar o nascer do sol. Viva bem a tempestade! A ansiedade por dias melhores, rouba-nos as energias para viver os bons momentos que o amanhã certamente nos trará, se aprendermos com os conflitos de agora.

Que valor daríamos à alegria se não houvesse tristeza? São dois paralelos necessários enquanto a imperfeição for parte de nossa vida. Jamais desejaríamos a plenitude se já estivéssemos fartos de bens.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

POR QUE NÃO EU?


Ele saiu de casa bem cedo, como fazia todos os dias. Depois de preparar  seu próprio café da manhã, com muito cuidado e máximo silêncio para não acordar a esposa e os dois filhos pequenos, se  despedia  deles com com um beijo. Eles ainda ficavam dormindo, mas sempre esboçavam pequenas reações quando o pai se aproximava para dar um beijinho de despedida à beira da cama. A rotina era a mesma. Mas nem ele, nem ninguém imaginava que aquele dia marcaria para sempre a vida de sua família.

Ao sair para o trabalho e pegar o carro na garagem como de costume, percebeu um barulho estranho no motor e, como não dava tempo de deixar o automóvel em casa e pegar uma condução, resolveu ir assim mesmo, pensando deixar o veículo numa oficina próximo ao seu trabalho. Mas, no trajeto, o carro enguiçou e acabou provocando um grave acidente que quase o levou à morte. Com ferimentos graves foi socorrido a um hospital local, numa ambulância do serviço de atendimento de urgência. A notícia do acidente chegou à sua família poucos minutos depois. A esposa ainda sentia o cheirinho do café que seu marido fez; a xícara, mal tinha acabado de respingar totalmente a água da lavagem no escorredor em cima da pia da cozinha.  

O que ocorreria à ponte
se o caminhão não estivesse lá?
Ele recebeu alta depois de 6 meses hospitalizado. Com o  benefício da seguridade social, os recursos eram menores, mudando quase que totalmente a rotina da família, pois não tinham acumulado economias suficientes para custear todas as despesas. A esposa, com muita dificuldade, agora com o marido preso a uma cadeira de rodas, teve que trabalhar e, para isso, precisou colocar os filhos numa escola e creche em período integral.  Até hoje ela pergunta: "Por quê essas coisas acontecem?  Por  quê as tragédias mudam a vida das pessoas para sempre?"
Na vida, vivemos sempre em busca de respostas, mas parece que mesmo aparentando resposta confortante, não era bem isso que gostaríamos de aceitar. É explicação que muitos procuram, mas a resposta parece não satisfazer, exatamente porque não nascemos programados para aceitar tragédias. A quem culpar? A sorte? O destino? A Deus? 

A linguagem que as vezes ouvimos para tentar minimizar a dor, e trazer algum consolo, só colabora para nos conformarmos com o que não podemos mudar. O que fazer? Perguntam alguns. A vida continua, dizem os mais práticos. Há os que apregoam que todos tem a sua hora determinada. Os espiritualistas consideram que mesmo não sabendo os motivos, precisamos aceitar que foi permissão de Deus, e até contextualizam a passagem Bíblica de que “não cai uma folha da árvore sequer, sem a permissão de Deus”. Os espiritistas consideram que foi simplesmente uma “passagem”  dessa para uma “melhor”, para um plano superior. Outros argumentos consideram até que os que morreram estão no céu, ao lado de Deus, olhando por nós. Não é raro ouvirmos que alguém morreu vitimado por uma bala perdida e, algumas correntes religiosas crêem que não existe bala "perdida", e que o projetil teria sempre um destino certo, no momento certo, para a pessoa certa. Outros procuram tirar "lições" das tragédias, fazendo uma introspecção de sua vida, imaginando se o fato lhes ocorresse, como estariam no momento. Outros dizem que essas ocorrências servem como um despertamento para cada um de nós reconhecer nossa fragilidade. 
Tragédia "anunciada" poderia ser prevenida?
Mesmo assim não estamos livres dela. 
O que não podemos negar, é que sempre recorremos a argumentos ou aceitação de idéias que nos confortem e que arranquem o pesar do coração, mas nada de concreto temos a não ser uma crença que conforte. Uma crença no invisível, em algo fora da nossa esfera de entendimento.

A aceitação daria um efeito analgésico para a alma, como um paliativo para convivermos com a dor, porém, sem o controle sobre sua causa.   Sejam  quais forem esses argumentos, contraditórios ou não, sob os variados pontos de vista e crenças, são meios  utilizados numa tentativa de  aplacar um pouco o sofrimento. 

E é proporcionalmente à maneira como se acredita, que naturalmente, como seres humanos, vamos tentando ajuntar nossos "cacos" pela estrada afora e nem sempre conseguimos recuperar o que perdemos completamente. No dia a dia,  vários casos ocorrem ao nosso redor. Quantos escapam da morte e  graves acidentes em frações de segundos, exatamente por não estarem no momento em que uma tragédia se abateu. Outros, simplesmente por não estarem no local costumeiro no mesmo dia e hora em que acidentes acontecem, nada sofrem. Mas quantos casos semelhantes em pequena ou grande escala podem estar acontecendo exatamente neste momento? Quantos escapam e quantos morrem? Mas é isso  que torna uma pessoa mais protegida, seja lá como acreditem pelo destino, pela sorte ou por Deus? Fatalidades ocorrem todos os dias e vivemos num ambiente propenso a isso: o trânsito, as construções, catástrofes naturais, as possibilidades e probabilidades de acidentes de todo tipo, seja  por falha humana, negligência, desatenção ou outros fatores determinantes, exatamente porque extamos expostos a isso, mesmo prevenindo. Prevenção não significa proteção. É a parte material e física que depende de nós.   

E, quantas vezes, não estamos na hora e no lugar que costumamos estar, e nada de extraordinário acontece e, nada, também, podemos provar que aconteceria se estivéssemos lá. Quantas vezes vamos e voltamos do trabalho e tudo ocorre dentro da normalidade, mesmo sendo espectadores de fatalidades ao nosso redor?

No ambiente em que vivemos,
as falhas de uns, de algum modo,
interferem na vida de outros.
Por que o outro e não eu? Para quem vive o drama, e para quem escapou ileso, é confortante dizer: “Deus olhou por mim”. E é importante crer assim. É confortante alívio quando vemos diante de nós, algo que consideramos miraculoso, atribuído a algo sobrenatural diante de um livramento. Mas o que dizer do outro? Deus o teria abandonado? 
Não creio que  há algo de especial nisso. O fato de alguém voltar para casa, exatamente antes de uma tragédia se abater no local onde estava,  talvez  não  teria muito a ver com proteção do além. Se o assunto for levado para o âmbito espiritual, Deus não haveria de salvar a uns e permitir que outros morram. Mas, nesse pensamento, caberia o que disse o Sábio Salomão: “a sorte  e o destino  estão sujeitos a todos”. 
Há algo que podemos prever e prevenir, mas nem tudo depende de nós; há muitas questões que fogem ao nosso controle. As interrogações são muitas. Não temos resposta. Por isso costumamos dizer, que todos estamos sujeitos a isso. Mas a palavra diz que "para Deus, a noite e o dia são a mesma coisa. A altura e a profundidade para Ele não faz diferença". A vida e a morte estão nas mãos dEle. 
Tudo está em Deus. Importa é saber como estaremos diante dEle no momento em que a nossa jornada aqui se encerrar. É nisso que vale a pena pensar.