domingo, 20 de janeiro de 2013

A SILENCIOSA FUGA DE UM ASTRO

“Acho horroroso ser um velho de Copacabana. A sociedade não aceita o velho; tudo tem que parecer saudável, vigoroso”. (Walmor Chagas numa entrevista à TV Cultura)

Walmor Chagas
Não faz muito tempo, muitos  puderam  acompanhar, orar e torcer pela saúde de Chico Anísio, que publicamente revelou seus problemas de saúde, cuja debilidade era notória em suas aparições na televisão. Atribuía ao cigarro o enfisema que trouxe consigo outras complicações durante o tempo em que lutou contra a doença. Sempre bem disposto, mesmo com aparente dificuldade, não se entregava. E foi assim até o fim. Amigos tiveram a oportunidade de dar o seu último adeus.



Com a apresentadora Hebe Camargo foi a mesma coisa. Sempre sorridente e otimista na maneira de encarar a doença, mesmo de peruca por causa da perda de cabelo pelo tratamento quimioterápico e mais magra, apresentava seu programa de televisão. O mesmo não aconteceu com o grande astro do teatro, cinema e televisão brasileiro  Walmor Chagas - que segundo laudo pericial residuográfico havia  vestígios de pólvora na mão do ator -  cometeu suicídio dentro de casa, atirando contra a própria cabeça com um revólver que mantinha para sua segurança numa fazenda onde decidiu viver solitário em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, distante da agitação da cidade. Quando não estava em gravações - que segundo o que declarou só aceitava participações em poucos capítulos – era para lá que se recolhia. “Acho horroroso ser um velho de Copacabana. A sociedade não aceita o velho; tudo tem que parecer saudável, vigoroso”.

Apoiado em bengala, dava mostras de sua debilidade
Walmor Chagas parecia mostrar sua  revolta com a velhice, supostamente pela exigência da sociedade de que o velho precisa parecer novo e bem disposto, o que não é privilégio de todos. Talvez, não queria viver escravo dessa mentalidade que se ramifica cada vez mais. Da fazenda onde morava, só saía para cortar o cabelo. “Só saio para cortar o cabelo quando ele chega no ombro” – disse numa entrevista, sempre com cigarro entre os dedos, tragando-o de vez em quando. O ator tinha um senso crítico aguçado, de um conhecimento e cultura de quem não só viveu, mas tirou lições de suas experiências.  Fez  duras críticas à televisão e às novelas. “Quando eu vejo novelas eu me pergunto como eu fui fazer isso?” – mas emendou dizendo que fazia novelas pra ganhar dinheiro e por isso, muitas vezes se sentiu prostituído. 
Uma repórter perguntou a ele faz algum tempo: "O que o senhor diria para os novos atores, os que estão começando agora?" - E ele respondeu: "Tudo o que eu disser não vai adiantar nada. Eles dirão: isso é pensamento de velho". Ele não escondia sua admiração pelo teatro e pelo cinema. Sua maneira  de  expressar, mostrava seu senso crítico e grande exigência consigo mesmo. Na solidão, recolhido, talvez passasse por sua cabeça todos os momentos de glória que viveu em sua carreira e, agora, tendo que conviver com uma doença que estava debilitando sua saúde. Informações dão conta  de  que  ele  já estava com dificuldade para andar, e quase cego. Fumante inveterado, o que demonstrava em suas aparições, sempre fumando um cigarro, sua doença pode ter sido agravada pelo vício. 
Diabetes prejudicou a visão do ator
Mas, o que seria de Walmor Chagas, se tivesse compartilhado com amigos o seu problema? Como seria, se ele tivesse falado sobre suas debilidades, abrindo-se para a vida? Como seria, se tivesse compartilhado o peso de suas preocupações? Talvez não curasse sua doença física, mas emocionalmente poderia ter tido mais força contra a depressão

Dele, não se ouviu nenhuma notícia de internação, nenhum boletim médico falando sobre seu estado de saúde; nenhum de seus fãs e admiradores  puderam orar por sua melhora ou recuperação. Ele mesmo, em silêncio, deu fim à própria vida. Assim como recluso e silencioso viveu seus últimos anos, assim foi sua despedida. Em seu velório, apareceu apenas a atriz Lucélia Santos, representando a classe artística.  Talvez por sua morte ter surpreendido a todos. Foi tudo tão rápido, num fim de semana, e fora do eixo que naturalmente gira os artistas. Walmor Chagas morreu em sua fazenda, numa cidade do Vale do Paraíba, velado e cremado na cidade de São José dos Campos. 

O que se passa na cabeça de um artista quando a doença o aflige ou quando não está mais em evidência na televisão e nos palcos de grandes espetáculos? O que se passa na cabeça de velhos atores, experientes, competentes, quando são substituídos por uma nova geração sem muito talento?

Seria vergonhoso ou constrangedor um “herói” aparecer debilitado para os que torcem por ele? Seria vergonhoso ou constrangedor um guerreiro permitir-se à substituição na guerra por dar sinais de cansaço?  Seria um ato de covardia ou de coragem admitir que não podemos mais lutar? Talvez assim pensemos porque aprendemos que temos que ser guerreiros o tempo todo e não admitimos que também podemos fracassar, mas isso não significa que fomos vencidos.
Infelizmente, todos vivemos numa sociedade de aparências. Criam-se padrões e critérios exigentes. Essa escravidão ideológica tem destruído a muitos, pois a tendência e a celeridade dessa mentalidade é muito maior do que a reflexão serena da importância da vida em detrimento das coisas que se cria e dos conceitos dominantes.  Esses conceitos, acabam despertando dentro de nós, o monstro do orgulho e do egoísmo, que nos fazem morrer silenciosamente, por não querermos admitir que não conseguimos, que não podemos mais. Por outro lado, não queremos aceitar o fato de  retomarmos o conceito simples da vida; de viver a nossa real verdade; encarar nossa realidade, nossas rugas, nossa fragilidade, nossa transitoriedade.Preferimos nos apegar a coisas ou a pensamentos, ou a conceitos que não nos sustentam na hora da verdade    

Talvez a crítica de Walmor Chagas faça sentido neste aspecto: “A sociedade não aceita o velho. Tudo tem que parecer novo e vigoroso”.

Isso pode explicar a vaidade e a busca pela “juventude eterna” de atores e atrizes veteranos; a mudança de linguagem e de perfil de comportamento para se adequarem à modernidade e ganharem admiração por estarem “antenados” com seu tempo. É preciso que todos nós estejamos preparados, não só para a velhice, mas para sair de cena também. É o caminho de todos nós, e esse caminho deve ser trilhado naturalmente com a consciência de que um dia a doença pode nos afligir, mesmo com os cuidados que tomamos; que o nosso padrão de vida pode ser alterado; que as portas pelas quais entramos não nos abrigarão por toda a vida. Na verdade, não queremos viver pensando que tudo tem seu tempo determinado debaixo do sol, quando o tempo é de chorar, não de sorrir. Quando é de derrubar, não de construir; quando é de morrer, não de viver. (Eclesiastes 3)

É preciso viver. Não devemos passar pela vida, absortos pela ilusão. Precisamos viver intensamente, sim, a cada momento, sem ansiedade, mas com pés no chão e olhar na eternidade, pensando no que vem depois. É preciso aceitar que a vida que vivemos nem sempre é a que gostaríamos de viver, mas é por ela que aprendemos e tiramos grandes lições, principalmente quando alinhamos nossos sonhos e projetos com os propósitos do Criador; é dela que daremos conta um dia quando teremos que responder: “O que você fez com o seu passatempo”? 



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

FUI ESCRAVO DE SATANÁS



“Eu comecei a ser procurado, porque eu dizia o  nome  das pessoas e o que elas  foram  fazer lá. Falava coisas sobre a vida delas que as deixavam maravilhadas. Eu também curava muita gente”
Angelim em sua oficina de conserto de calçados
 Ele me recebeu em  sua  oficina de conserto de calçados, profissão que  seu  Angelim - como  é  conhecido pelos amigos – o Paulista Ângelo Barreiro, 70 anos, exerce desde os anos 1960. Depois da “glória” e da fama como “pai-de-santo”, respeitado por muitos, e temido por outros, por sua capacidade mediúnica de cura e de maldição, hoje leva uma vida simples,  mas se diz em paz com Deus e a consciência, na mesma sapataria, de onde recorda momentos dramáticos pelos quais passou como escravo de espíritos.

Sua  vida sofreu  altos e baixos, da prosperidade à pobreza, e quase morreu desenganado pelos médicos de uma doença não revelada em diagnósticos. Aos 18 anos, após a entrega de materiais num centro de Umbanda e Candomblé, teve contato pela primeira vez com essa religião afro-brasileira. “Ao entrar no local, depois da insistência de um amigo, senti algo estranho. Ao som dos atabaques comecei a saltar como nunca, dava cambalhotas, mas naquele momento eu já estava possuído por um espírito. Eu percebia tudo o que acontecia, mas eu não tinha o controle do meu corpo. Acontecia sem eu querer” – revelou.

Angelim afirmou ter sido criado numa família religiosa católica que mais tarde converteu-se à Igreja Adventista do Sétimo Dia. “Quando essa experiência aconteceu comigo, eu era da igreja e foi assim que me afastei”.

No terreiro ele passou a ser respeitado pelos espíritos, e foi lá que tomou bebida alcoólica pela primeira vez ao incorporar  espírito de “Zé Pelintra”. “Eu comecei a ser procurado, porque eu dizia o  nome  das pessoas e o que elas  foram  fazer lá. Falava coisas sobre a vida delas que ficavam maravilhadas. Eu também curava muita gente” – explicou.

Dom de Cura

Angelim era procurado, principalmente, por seu dom de cura. “Eu curava desde quebraduras de animais a doenças graves” – afirmou. Ele se recorda de quando uma vez foi chamado para salvar cerca de 300 ovelhas de um incêndio que se alastrava pelo pasto. “Eu benzia fogo. Naquele momento em que fui chamado, invoquei os poderes e o fogo parou. Queimou tudo em volta, mas o local onde estavam as ovelhas foi protegido. O dono dos animais ficou maravilhado. Com isso minha fama crescia cada vez mais”.  O ex-“pai-de-Santo”, hoje converso ao cristianismo, porém, fez um alerta, afirmando que o diabo trabalha iludindo as pessoas. “Ele coloca a doença e ele mesmo tira, para as pessoas acharem que aquele é o caminho certo; a maneira de o diabo curar imita com muita perfeição a cura divina. Só quem testa o espírito é capaz de discernir, e  poucos  tem o conhecimento da palavra de Deus para diferenciar”.

Mergulhando no abismo

Foi  com o reconhecimento de médiuns no terreiro em que frequentava,  que pouco tempo depois recebeu uma carta orientando-o a abrir um centro e tornar-se “pai-de-santo”. Ele já havia feito “cabeça”, tomado banho se sangue de bode, como um ritual de pacto com os espíritos. Assim ele prosperou como um simples sapateiro e “pai-de santo”. “O dinheiro para o meu sustento vinha apenas do meu ofício de consertador de sapatos. Não cobrava um centavo das consultas que eu dava, por orientação dos espíritos”, revelando que era procurado por políticos famosos do Estado do Paraná e de pessoas da alta sociedade que vinham  em busca de conselhos ou de outros trabalhos. “Eu prosperei. Aparecia serviço não sei de onde em minha oficina. Comprei muitas propriedades e cheguei a ter dezesseis carros no pátio de minha casa. Eu trabalhava sozinho na oficina e dava conta de todos os serviços porque de madrugada, os espíritos vinham para me ajudar. Amanhecia tudo pronto; sapatos engraxados nas prateleiras”- disse, acrescentando  que  tornou-se um escravo e não sentia paz. Segundo o que me contou, mesmo sendo usado pelo espírito do mal, o Espírito Santo o incomodava, estabelecendo-se um conflito quase que permanente, o que aumentava ainda mais seu sofrimento.  “Foram 30 anos sem beber água, sem comer uma fruta, sem sentir prazer em nada; fumava cachimbo e charuto e mais 70 cigarros por dia; emagreci muito e usava uma barba enorme por ordem dos espíritos”.

À beira da morte

Foi à beira da morte que ele começou a retomar sua vida e buscar a liberdade que teve antes de cair nos laços do diabo. “Quando eu decidi voltar para Cristo, o diabo disse que tiraria a minha vida. Fiquei com medo e adiei minha decisão; mas o espírito santo me incomodava. Cheguei até ver um anjo com um livro na mão, dizendo que meu nome não estava lá” – recorda.  Foi depois de sua decisão que caiu doente sem que os médicos descobrissem o mal que ele sofria. “Não tenho estômago, perdi o rim, e vivo hoje por Deus”- regozija-se. Angelim afirmou ter sofrido perdas de todos os seus bens que adquiriu na época em que era “pai-de santo”. Segundo ele, tudo foi se acabando de maneira misteriosa, assim como foi a conquista dos bens. “Foi  um momento de dura prova para mim, porque não apareciam mais trabalhos na minha sapataria. Minha máquina ficou parada por seis meses sem ter o que fazer e eu sempre em oração a Deus para sustentar a minha fé; mas Deus nunca me deixou passar fome com a minha família. O necessário, nunca nos  faltou”.

“Se hoje eu estou aqui é porque  Deus me sustentou, porque as tentações foram muitas. Havia um conflito entre o material e o espiritual. Mas Deus saiu vencedor em minha vida”.



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O SHOW DE MILAGRES

As apresentações de supostas curas e milagres  tornaram-se verdadeiro espetáculo na  tela  da televisão. É assim que líderes religiosos chamam atenção para levar pessoas a seus templos em busca da solução de seus problemas. Para eles, "a mão de Deus" tem um lugar certo para operar, e cada qual diz que é nas reuniões que realizam. Parece haver uma disputa entre eles para mostrar onde Deus estaria verdadeiramente operando sinais e prodígios, passando a ideia de que Deus inclina-se para uns, e vira as costas para outros, ou numa visão mais agressiva, Deus seria um objeto de uso exclusivo daqueles que gritam mais alto, que alardeiam sob demandas agressivas que  foram escolhidos para aquela missão, mas escondendo a intenção de fazer do evangelho e da exploração da fé, um meio fraudulento em busca da riqueza material de seus líderes.

Multidões vão em busca da cura de enfermidades físicas
“Ele vê a doença no corpo humano”. Assim era a frase de abertura do programa de um missionário chamado Alves Machado no final dos anos 1980 no Rio de Janeiro. O  programa, limitava-se a exaltar o poder de cura do missionário, onde pessoas que se diziam curadas davam testemunho do suposto milagre alcançado. Nessa linha surgiram vários outros, como o movimento dos padres carismáticos que, como esses pastores, prometiam oração, exorção e cura, chamando seus ouvintes para as reuniões em seus templos, porque lá, diziam eles, o milagre seria operado. Lembro-me ainda nos anos 1980 do programa do RR Soares, que diferentemente de hoje, não tinha emissoras de rádio, nem recursos para bancar investimentos milionários com programas em rede nacional de televisão. Os espaços dos programas eram alugados. E, por meio deles, atraía pessoas aos templos, divulgando o endereço da bênção. Do mesmo modo, esse mesmo estilo de programa foi adotado pela Igreja Universal do Reino de Deus. O enfoque era a cura de doenças; quebra de maldições e prosperidade. Os testemunhos veiculados nos programas em que pessoas contavam sobre sua vida antes e depois de conhecerem a  igreja, eram utilizados como “iscas” para levar o oprimido, doente e sem esperança á suas reuniões.

Sofredores buscam o alívio de seu mal
Mas este tipo de Marketing da fé não é coisa nova, apesar de atualmente o Apóstolo da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago alardear que está sendo copiado ao abrir espaço para testemunhos. “Tem muita gente me copiando por aí. Mas para fazer milagre de verdade, tem que fazer como eu faço; subir o monte, sacrificar pelas almas” – disse recentemente. Em outras palavras: o milagre acontece de verdade, mas só em seus templos. “A mão de Deus” operaria somente ali segundo o que sugerem. Por outro lado, atribui a operação do milagre que diz ocorrer em sua igreja, vaidosamente ao seu esforço pessoal do "sacrificar-se" pelos outros, o que Cristo já fez por todos. Analisando bem, essa "pregação" chama a atenção para o homem, ainda mais quando presunçosamente diz não ser nada e, por outro lado, contradizendo-se, coloca-se no pedestal da exaltação própria quando diz sofrer pelos outros; jejuar e orar no lugar dos outros; receber o poder no lugar dos outros, para tê-los como "clientes" da fé. "Eu vou subir no monte e colocar o seu nome lá. Eu vou buscar o poder para abençoar você". Esse discurso acaba fazendo as pessoas sem conhecimento da palavra de Deus, pensarem que aquele homem é diferente, um santo, que fala com Deus. Leva pessoas a buscarem nele a solução, que do contrário não conseguiriam. 
 
Mas essa prática já era comum que eu me lembre. Já nos anos 1970, uma de minhas tias passava quase o dia todo ouvindo o programa de rádio “A Voz da Libertação”, do Missionário David Miranda, que diferentemente dos milagreiros atuais, nunca teve programa de televisão. Ela não era frequentadora da igreja,  mas era ouvinte assídua, inclusive atendia a todas as sugestões do pregador, como o pedido para colocar o copo com água em cima do rádio e bebê-la após a oração. Assim tornou-se colaboradora do programa, através de um carnezinho. A Igreja Pentecostal Deus é Amor, se autodenominava o “pronto socorro de Jesus”. Até mesmo na vinheta cantada do programa, na voz das filhas do Missionário, ouvia-se o refrão: “Igreja Deus é Amor, pronto socorro de Jesus, surdo ouve, mudo fala e o cego vê a luz”. O missionário atraía a todos pelo programa de rádio, onde se ouvia obreiros convidando os ouvintes para suas igrejas, divulgando os endereços onde eles receberiam a bênção. Grandes eventos eram anunciados. Caravanas vinham de todos os lugares. O líder da igreja chegou mesmo a ser acusado de charlatanismo. Houve até denúncias de que os "paralíticos" que andavam, na verdade não eram paralíticos, mas pessoas que representavam durante o evento. As "divinas" revelações, suspeitava-se que era algo combinado. Mas, muitas vezes, a cura se processava mesmo. O milagre acontecia mesmo e havia pessoas que receberam essa bênção. Mas o que mudou na vida delas? Ouvi certa vez o testemunho de uma mulher que disse ter sido curada de hipertensão. Segundo o que declarou, não podia comer sal. O médico a orientou a cortar o sal de sua comida completamente. "Agora eu como sal a vontade, posso comer sal quanto eu quiser" - disse ela, sendo aplaudida pela igreja. Ou seja: Ela foi curada, mas continuou usando sal em demasia, que segundo especialistas, retém líquido no organismo, podendo levar a problemas renais e a hipertensão. O que mudou? Recebeu o milagre para viver do mesmo jeito. Onde está a orientação: "Vá, e não peques mais" como Jesus disse à pecadora?

Mas era por promessa de que Deus estaria operando em suas reuniões, que muita gente sofrida, sem esperança, doentes e aflitas, iam  em busca da solução de seus problemas. Hoje, mesmo com a “concorrência”, a Igreja Deus é Amor segue a mesma linha: “cura e libertação”. Pelo que acompanhei, todos os outros movimentos de cura e libertação modernos, seguiram o estilo David Miranda, tanto por seu carisma, quanto pela linguagem simples que se identificavam com as pessoas comuns. 

Por um lado, percebemos a grande necessidade das pessoas, seja na área material ou espiritual. Não se pode negar que uma porta que se abre convidando a todos que sofrem e que querem ter uma vida próspera e abundante, certamente atrai os  que não encontram mais saída.  Por outro lado, a exploração  de líderes religiosos com a boa fé dessas pessoas. Eles se confrontam na tentativa de provar qual é o Deus que opera em sua igreja, como se Deus fizesse acepção de pessoas ou tivesse um representante exclusivo que intercedesse diante dEle. A verdade é que  nessas igrejas, “milagre” virou produto e, o nome de Jesus, garoto propaganda.



Jesus nunca alardeou as curas que realizava
Mas acautelai-vos. A palavra de Deus é clara. Só há um intercessor entre Deus e o homem: Jesus. Foi Ele quem disse: “Tudo que vocês pedirem em meu nome, crendo, recebereis”. Não há um lugar especial para isso, nem alguém autorizado a fazer isso por você. Jesus fala individualmente. “Se hoje você ouvir a minha voz, não endureça o coração”. Hoje, há tantos que se fazem ministros e se dizem necessários por suas ações, e por elas tentam dar legitimidade aos pedidos exorbitantes de dízimos e ofertas. Os milagres que apresentam, servem como moeda de troca, minimizando o impacto daqueles que de algum modo venham levantar alguma suspeita. E é esse o seu argumento. “Essa obra é de Deus. Ele nos aprova, veja aí os milagres” – defendem, e por meio desse discurso, emendam o pedido de ofertas para a obra ser mantida. E a pergunta é a mesma: "Quem te curou?" e mesma a resposta: "Foi Jesus" - contanto que seja o Jesus daquela igreja.  O Jesus da outra não funciona. É um show de supostos milagres e testemunhos que arrefecem o ânimo dos que tentam dizer que tudo não passa de fraude. Seria fraude mesmo?  Fica a dúvida cruel naqueles que não tem o conhecimento da palavra de Deus, nem o discernimento do Espírito Santo.

Ao olhar para a Bíblia e os milagres que Jesus operava, eu nunca li que Ele abria um salão para convidar pessoas para serem curadas. Nunca li que Ele pediu dinheiro, bens ou recursos de alguém para custear suas viagens ou manter seu ministério.  Jamais alardeou que resolveria os problemas das pessoas, mas fazia isso em silêncio por onde passava. Muitas vezes com a palavra, com o toque, com o olhar.

Acautelai-vos dos falsos pastores que tosqueiam as ovelhas sem nenhuma piedade, mas que fazem do evangelho fonte de lucros e negando a verdadeira fé.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A ‘CORTINA’ DA INCOMPETÊNCIA



Competência se desenvolve com capacitação
Uma frase que  tornou-se clichê, é utilizada sempre com ênfase à motivação: “Deus capacita os que são chamados, não chama os capacitados”.  Se concordarmos que essa frase serve de motivação àqueles que pensam não poder realizar determinada obra considerada difícil ou desafiadora, poderemos concordar também, que todo esforço deixaria de ser empregado por quem  foi designado a exercer alguma função importante. Por outro lado, Deus não é discriminador, mas seletivo. Ele vê além. Não vê como vê o homem. O homem, sim. Escolhe de acordo com suas amizades, com o que é mais cômodo e fácil de administrar, segundo seus projetos de poder. Mas isso não significa que Deus faça escolhas aleatórias, sem sentido. Quando escolheu a Davi e o ungiu como rei, Ele conhecia quem estava chamando. Se o critério da escolha de Deus é somente o poder que tem de capacitar os escolhidos, poderia ter escolhido qualquer outro filho de Jessé e tê-lo capacitado. Perceba que Deus tem seus critérios e, estes sim, são inquestionáveis. Os que dizendo-se incapacitados e incompetentes continuam numa missão e a conduz de maneira relaxada com respaldo em suas influências pessoais e articulações político-administrativas, não deveriam utilizar o nome de Deus, como se por Ele fossem chamados. Do mesmo modo, os capacitados e competentes para uma missão que não exaltam o nome de Deus, antes utilizam-se de sua posição para atender a seus próprios interesses, de igual modo não teriam o chamado divino para exercer suas funções. 
Há quem ‘trabalhe’ como se não necessitasse de competência e aperfeiçoamento no âmbito da atividade para a qual foi chamado, esperando que Deus o capacite. É indiscutível o fato de que todos nós somos capazes. É uma capacidade em potencial que só se manifestará efetivamente no exercício de uma função, a partir de conhecimento específico. O que não podemos é cometer o equívoco de igualar capacitação com competência, conhecimento com sabedoria. Um é o princípio, outro é o desenvolvimento que leva em conta a aplicabilidade do que sabemos.  A competência tem muito mais a ver com as fórmulas utilizadas, as ferramentas empregadas de maneira planejada e consciente oriunda das experiências acumuladas, que levem o indivíduo a realizar com precisão o que lhe é proposto.

Deus não só dá  a  todos capacidade para o exercício de seu chamado, como também desperta no indivíduo a busca pela competência.
O aperfeiçoamento da prática
dá mais segurança nas atividades

Se capacidade é algo natural, competência é valor que se agrega ao potencial do indivíduo de maneira construtiva. A “construção” da competência dependerá de outros fatores como vocação e talento que podem ser aperfeiçoados.

Certa vez um chefe reuniu seus subordinados e, tentando demonstrar humildade, revelou: “Eu não tenho capacidade de exercer a função que exerço. Eu não sou um líder. Eu não queria estar aqui, mas estou. Já coloquei meu cargo a disposição várias vezes, mas ainda me querem aqui”.
Esse é um tipo de liderança que prefere trabalhar com pessoas menos experientes, até mesmo principiantes, pois tem dificuldade de administrar profissionais competentes, e que de algum modo sente-se ameaçado pelos fantasmas que alimenta. Esse comportamento pode tornar o líder perigoso, pois dificilmente ele transmite o que pensa de fato, por medo de ser avaliado como alguém que não tenha competência para o exercício de sua função. Do mesmo modo torna-se pessoa imprevisível por sua insegurança.
Há quem considere que hoje em dia possuir um bom curriculum torna-se ameaça aos medíocres. Não é raro observarmos que há muitos subordinados com competência de líderes. Numa empresa pública em que o ingresso de profissionais se dá por concurso público, por meio avaliações, o candidato precisa basicamente mostrar conhecimento e habilidade para determinadas funções,  nas empresas privadas ou instituições corporativas o critério muda. Há os que entram pela "janela", sem ao menos saber o que deve fazer, nem as atribuições do cargo que ocupa.
Ouvi certa vez de um indicado ao cargo de direção geral: "Eu realmente não sei o que me espera; nunca trabalhei nessa área, mas que Deus me ajude". Numa visão objetiva dessa declaração, percebemos despreparo tanto de quem convida, quanto de quem aceita a indicação. Numa visão mais agressiva, parece ação fraudulenta, desonesta.

As indicações tem forte influência, e em muitos casos, cargos importantes como de chefia ou liderança de grupo ocorre nem sempre por competência do escolhido, mas pela boa relação pessoal que mantém com seus superiores, seu grau de afinidade e até mesmo de parentesco. Talvez a frase mencionada daquele chefe que se dizia "incompetente", explique esse vício praticado por muitas empresas.
Por exercermos uma atividade por longos anos, só não desenvolvemos competência por desinteresse, e os motivos podem ser vários. É preciso que o indivíduo esteja plenamente consciente e atuante e bem definido com relação ao exercício de sua atividade.  
Capacitação não é um fim em si mesmo. Aliás,  é o princípio que rege todas as ações  do ser humano. Competência está ligada à perfeição da prática. É necessário que capacidade e competência interajam para que todo o resultado do trabalho seja satisfatório. 
É possível  que haja  capacitados incompetentes, mas dificilmente encontraremos competentes não capacitados.